Mounjaro: entenda o que muda na prescrição após nova regra da Anvisa Ouvir 27 de novembro de 2025 A recente atualização feita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre o uso da tirzepatida, medicamento vendido como Mounjaro, alterou quem pode prescrever o remédio no país. Ao incluir, em outubro, a indicação do remédio para o tratamento da apneia obstrutiva do sono associada à obesidade, a agência acabou ampliando o grupo de profissionais aptos a indicar a terapia. Com isso, além dos médicos, cirurgiões-dentistas também passaram a poder prescrever o fármaco em situações relacionadas à apneia. Por que a Anvisa alterou a regra de prescrição? A alteração ocorreu porque a AOS é uma condição que, em muitos casos, também é investigada e acompanhada na odontologia. A interpretação técnica abriu margem para que dentistas incluam a tirzepatida no manejo desses pacientes. A mudança, no entanto, vem gerando divergências entre conselhos e entidades profissionais. O Conselho Federal de Odontologia (CFO) afirma que a prescrição dentro da área de atuação da odontologia é uma prerrogativa prevista em lei, mas ressalta que o ato exige cautela. A entidade destaca que o uso do Mounjaro envolve um nível maior de responsabilidade, já que o medicamento é indicado exclusivamente para pessoas com obesidade e, muitas vezes, com histórico clínico complexo ou em uso de outras medicações. “O cirurgião-dentista deve estar ciente que essa indicação pode resultar em efeitos colaterais do próprio remédio ou de eventuais interações medicamentosas. A orientação do CFO é de que a prescrição seja feita com autonomia, mas de forma responsável, com acompanhamento multidisciplinar”, informou o conselho em comunicado. O que dizem as entidades médicas Para especialistas da área médica, a possibilidade de prescrição por dentistas não é adequada. Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), explica que a tirzepatida recebeu aprovação específica para tratar a apneia do sono em pessoas com obesidade, grupo que exige avaliação clínica ampla. Ele destaca que os resultados que embasaram a liberação ocorreram em pacientes com apneia moderada a grave e perda média de 20% do peso corporal durante o tratamento. “Estamos falando de uma medicação que exige diagnóstico correto da obesidade, acompanhamento de efeitos colaterais e manejo de uma doença crônica complexa”, afirma. Para ele, apesar de dentistas atuarem no acompanhamento de alguns casos de apneia, isso não significa que devem prescrever o medicamento. “Não faz sentido que dentistas indiquem tirzepatida para essa finalidade específica”, diz. Halpern ressalta que o debate não deveria se concentrar em restringir tratamentos, mas em evitar a banalização. “O que queremos é que pessoas responsáveis prescrevam mais tratamentos para obesidade de forma séria. Dentro desse contexto, não vejo a prescrição por dentistas como algo positivo para a sociedade”, diz. Leia também Brasil Anvisa aprova Mounjaro para tratar apneia em pessoas com obesidade Saúde Benefícios à saúde se perdem após fim do uso de Mounjaro, diz estudo Bem-Estar Ozempic, Mounjaro e mais: como saber se a caneta emagrecedora é falsa Saúde Mounjaro mexe com sinais cerebrais para controlar impulsos, diz estudo A Associação Paulista de Medicina (APM) também defende que apenas médicos prescrevam tirzepatida. A entidade reforça que o remédio exige avaliação completa do paciente, já que condições como nódulos de tireoide, pancreatite, cálculos biliares, uso de insulina ou histórico cardiovascular podem alterar totalmente a conduta. Segundo o presidente da APM, Antonio José Gonçalves, a prescrição não pode ser tratada como um procedimento simples. “É um medicamento que requer análise do quadro clínico como um todo. Há contraindicações absolutas e riscos sérios se ele for usado sem acompanhamento adequado”, afirma. Gonçalves também alerta para o risco de uso inadequado para fins estéticos. “A banalização prejudica a segurança dos pacientes e compromete o entendimento de que a obesidade é uma doença que precisa ser tratada com critério”, explica. Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e fique por dentro de tudo sobre o assunto! Notícias
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