Biofobia: por que algumas pessoas não gostam do contato com a natureza Ouvir 2 de janeiro de 2026 *O artigo foi escrito por Johan Kjellberg Jensen, pesquisador visitante em Ciências Ambientais da Universidade de Lund, e publicado na plataforma The Conversation Brasil. Somos constantemente lembrados de que passar tempo na natureza é bom para o corpo e para a mente. Um grande número de pesquisas mostra vários benefícios para a saúde decorrentes do contato com a natureza, que vão desde a redução do estresse até a melhora do sistema imune e mesmo do desempenho acadêmico de crianças. Mas nem todos estão obtendo esses benefícios. Algumas pessoas sentem medo, aversão ou repulsa por animais e pela natureza. O fenômeno, chamado biofobia, tem sido um pouco negligenciado nos estudos sobre as relações entre o ser humano e a natureza. Isso significa que o problema é mal compreendido: não está claro exatamente sua causa, nem qual a melhor forma de tratá-lo. Além disso, há sinais de que está se disseminando. Em meu novo estudo com colegas, buscamos esclarecer a biofobia, delineando uma estrutura conceitual de relações negativas com a natureza que pode ser aplicada em várias disciplinas científicas – e revisando sistematicamente todos os estudos que foram feitos sobre o tema até agora. Leia também Pouca vergonha Entenda o que é a gamofobia e como ela afeta até relações seguras Vida & Estilo Telefonofobia: por que tanta gente evita ligações e prefere o WhatsApp Saúde Gerontofobia: veja os 5 maiores medos do brasileiro ao envelhecer Vida & Estilo Pânico de escorpião: quando o medo se transforma em escorpiofobia O oposto da biofobia é chamado de biofilia, uma afinidade inata com a natureza. Ambos os termos têm origem na psicologia evolutiva, que originalmente enquadrou as respostas positivas e negativas à natureza como mecanismos adaptativos a recursos e ameaças. Hoje, a biofobia se refere mais amplamente à aversão à natureza, levando a relações negativas com o mundo natural. Essas relações negativas podem assumir muitas formas, mas reduzem significativamente os benefícios à saúde associados à natureza, além de prejudicar os esforços de conservação do meio ambiente. Sendo assim, é importante compreender toda a gama de relações entre o ser humano e a natureza – da afinidade à aversão. No total, encontramos 196 estudos sobre biofobia. Eles estavam espalhados por todo o mundo, com algum viés em direção aos países ocidentais. Embora muito menos numerosos do que os estudos sobre relações positivas entre o ser humano e a natureza, observamos um rápido crescimento do interesse neste tema. Esses estudos também estavam espalhados por uma ampla variedade de campos de pesquisa, incluindo conservação, ciências sociais e psicologia. Uma de nossas principais conclusões foi que existem fortes divisões entre os campos, com vieses claros em termos de qual parte da natureza é estudada. Múltiplas causas para a aversão à natureza Descobrimos que a biofobia é causada por múltiplos fatores. Geralmente, eles podem ser divididos em fatores externos e internos. Os fatores externos incluem o nosso ambiente físico, como a nossa exposição a diferentes espécies. As atitudes sociais são outro fator externo e podem incluir narrativas da mídia sobre a natureza — pense em como o filme Tubarão, por exemplo, criou um medo generalizado de tubarões. Os fatores internos, por outro lado, abrangem traços pessoais. Estes incluem o conhecimento e a idade, que podem mediar os nossos sentimentos em relação à natureza. Por exemplo, ter um bom conhecimento das espécies e compreender como a natureza funciona reduz o risco de relações negativas com a natureza. Em contrapartida, sentir-se fraco ou com má saúde está correlacionado com um maior medo dos grandes carnívoros. Mas é importante observar que esses fatores podem interagir e se entrelaçar de maneiras complexas. As atitudes, interações e comportamentos em relação à natureza também são afetados pela própria biofobia. Por exemplo, indivíduos biofóbicos podem evitar áreas onde acreditam que existem espécies de animais que temem. E isso pode levar a um maior apoio ao abate de animais como lobos, ursos e tubarões. Animais normalmente vistos como ameaças — cobras, aranhas e carnívoros — são bem estudados. Mas a biofobia também pode ser direcionada a espécies inofensivas ou mesmo benéficas para ter em nossa proximidade como, por exemplo, espécies nativas de sapos. Tratamentos Dados os benefícios de passar tempo na natureza, existe alguma maneira de tratar a biofobia? Definimos categorias gerais de tratamentos para a biofobia, embora não exista um único tratamento que funcione para todos. Uma linha de tratamento é a exposição. Isso pode variar desde simplesmente se acostumar a passar tempo na natureza até tratamentos clínicos propriamente ditos. Por exemplo, pessoas que têm medo de aranhas podem superar seus medos com ajuda profissional, começando por olhar fotos de aranhas e reformular seu pensamento sobre elas. Outro tipo de “tratamento” é a educação. Isso pode variar desde estudos formais sobre o mundo natural até a colocação de placas informativas em reservas naturais, ajudando as pessoas a entender melhor o que as rodeia, quais espécies existem ao seu redor e como essas espécies se comportam. Por fim, há a mitigação de conflitos. Essa é uma técnica para reduzir experiências negativas ou compensar experiências ruins do passado. De fato, é importante observar que a natureza pode ser perigosa e, dependendo do contexto, sentimentos negativos podem ser totalmente racionais. Por exemplo, agricultores podem ter uma visão negativa dos animais selvagens que destroem as plantações. A mitigação de conflitos proporá maneiras de reduzir essa destruição. As pesquisas que examinamos, provenientes das áreas de psicologia e estudos sociais, concentraram-se nos efeitos sobre os seres humanos, mas muitas vezes definiram a natureza em termos muito amplos ou muito restritos. A ciência ambiental, por outro lado, concentrou-se nos impactos sobre a conservação da natureza, mas muitas vezes simplificou excessivamente os contextos sociais e os fatores psicológicos. Para nós, está claro que os pesquisadores devem combinar essas duas visões complementares sobre a biofobia para melhor compreendê-la e, em última instância, mitigá-la. Se você sente alegria e relaxamento ao ar livre, você está na maioria. Mas estudos sugerem que as taxas de biofobia estão aumentando. À medida que nos afastamos da natureza, vivendo vidas urbanas onde animais e plantas selvagens estão se tornando um eco distante, é ainda mais importante tentar preservar o amor pela natureza — especialmente se quisermos manter os benefícios para a saúde e manter ecossistemas estáveis. Abrir os olhos para o nosso ódio pela natureza é, em última análise, crucial para reverter uma tendência de relações negativas com a natureza. Notícias
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