Indígena resgata saberes ancestrais em estudo sobre plantas medicinais Ouvir 11 de julho de 2025 Uma pesquisa inédita conduzida pelo etnobotânico Hemerson Dantas dos Santos Pataxó Hãhãhãi está ajudando a resgatar práticas curativas tradicionais que vinham se perdendo entre os Pataxó Hã-Hã-Hãi, povo indígena do sul da Bahia. O trabalho reuniu saberes transmitidos por anciãos da comunidade, mapeou o uso de dezenas de plantas medicinais e resultou em um artigo científico publicado em uma revista internacional. Atualmente doutorando pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Hemerson cresceu na Terra Indígena Caramuru-Paraguassu e decidiu transformar o conhecimento tradicional em ciência acadêmica. A pesquisa foi realizada em parceria com a orientadora Eliana Rodrigues e publicada no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine em 17 de maio. Leia também Saúde Chá anti-inflamatório diminui açúcar no sangue e digere gorduras Saúde Saiba mais sobre planta secreta que é ótima para digestão e imunidade Claudia Meireles Planta anti-inflamatória “turbina” o cérebro e ajuda a circulação Ciência Plantas conversam? Saiba como elas se defendem de ameaças O objetivo inicial era identificar tratamentos usados pela comunidade para três problemas comuns de saúde: verminoses, diabetes e hipertensão. A partir disso, o pesquisador catalogou 175 plantas medicinais, sendo que 43 delas são utilizadas especificamente para essas doenças. De acordo com a revisão científica feita no estudo, quase 80% dessas espécies têm comprovação de eficácia na literatura especializada. Entre as mais mencionadas estão o mastruz, utilizado para vermes, o capim-cidreira, indicado para pressão alta, e a moringa, usada no controle da diabetes. Dessas, apenas o mastruz é considerado nativo do Brasil. As outras são espécies exóticas, introduzidas no país ao longo do tempo. Para Hemerson, isso reforça o impacto do deslocamento forçado e da devastação ambiental sofrida pela população indígena. “Consegui encontrar poucas espécies nativas. Muitas plantas mencionadas pelos anciãos desapareceram da mata”, explicou Hemerson, em comunicado. Saberes ameaçados pelo tempo O trabalho envolveu entrevistas com 19 especialistas indígenas reconhecidos por seus conhecimentos em práticas de cura. A maioria tinha mais de 60 anos e compartilhou lembranças sobre o uso de plantas, o preparo de remédios e as transformações culturais vividas pela comunidade nas últimas décadas. O pesquisador relata que muitos dos curandeiros hoje são evangélicos, e as rezas tradicionais foram substituídas por orações e trechos da Bíblia, sem que isso significasse o abandono completo da medicina tradicional. Uma das principais referências do estudo foi Dona Marta Xavier, anciã da comunidade, conhecida pelo dom de cura e por seu conhecimento sobre ervas. Parteira durante muitos anos, ela ajudou a trazer ao mundo boa parte das crianças da aldeia. O irmão dela, Aniraldo, também contribuiu com o trabalho. Na região onde vive, foi implantado um viveiro de plantas medicinais, fruto do projeto. Durante a pesquisa, Hemerson percorreu as dez aldeias da Terra Indígena Caramuru-Paraguassu em mais de 240 dias de trabalho de campo. Por viver na comunidade, teve acesso a situações normalmente restritas, como o uso de cantos e orações na preparação de remédios. “Foi um mergulho na minha própria história. Ouvir os mais velhos, gravar suas memórias, me fez conhecer coisas que eu mesmo não sabia sobre o meu povo”, conta ele. Conhecimento como instrumento de autonomia A pesquisa seguiu uma abordagem chamada etnobotânica participativa, criada pela orientadora Eliana Rodrigues. O método propõe que os próprios povos tradicionais sejam protagonistas de todas as etapas da investigação, desde a definição das perguntas até a publicação dos resultados. A proposta busca romper com a lógica colonial da produção científica, que historicamente tratou os indígenas como objeto de estudo. No modelo participativo, o pesquisador indígena é capacitado para registrar e interpretar os conhecimentos da sua própria comunidade. Isso permite, por exemplo, que o conteúdo seja preservado na língua de origem ou adaptado às necessidades locais. Além disso, contribui para um debate global ainda em aberto sobre os direitos de propriedade intelectual dos saberes tradicionais. Além do artigo científico, o trabalho resultou em um livro, um vídeo documentário e ações práticas nas aldeias, como a criação de canteiros de ervas medicinais e a produção de um livreto com receitas seguras, voltado para jovens e profissionais de saúde indígena. O projeto teve apoio da Fapesp por meio de bolsa de doutorado concedida ao autor. Para Hemerson, o estudo é um exemplo de como é possível unir tradição e ciência sem abrir mão da identidade indígena. “Esse trabalho foi feito por nós e para nós. Resgata conhecimentos que estavam se perdendo e mostra que podemos fazer ciência sem deixar de ser quem somos”, finaliza. Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e fique por dentro de tudo sobre o assunto! Notícias
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