Tabu do toque retal limita prevenção e atrasa diagnóstico e tratamento Ouvir 15 de novembro de 2025 A resistência masculina ao exame de toque retal continua sendo um dos maiores obstáculos no diagnóstico precoce do câncer de próstata no Brasil. Embora seja um procedimento rápido, seguro e indolor, muitos homens ainda associam o toque à vergonha, constrangimento ou a uma suposta ameaça à masculinidade. Segundo especialistas, esse imaginário, sustentado por tabus culturais, acaba tendo impacto direto na saúde do homem. Atrasos no diagnóstico podem custar anos de vida. “O desconforto físico é mínimo. O maior desafio está no preconceito que antecede o exame. Para muita gente, o constrangimento imaginado é maior do que a experiência real. E é justamente essa barreira emocional que ainda afasta milhares de homens do consultório”, explica o urologista Rodrigo Arbex. Leia também Saúde Comer bem é uma forma de prevenção do câncer de próstata Saúde Saúde da próstata: conheça mitos e verdades sobre o câncer no órgão Pouca vergonha Novembro Azul: câncer de próstata ainda leva tabus sobre sexualidade Saúde Nova combinação de remédios retarda câncer de próstata avançado Câncer de próstata O câncer de próstata é o mais frequente entre os homens, depois do de pele, segundo o Ministério da Saúde. Na fase inicial, o câncer de próstata pode não apresentar sintomas. Os sinais mais comuns incluem dificuldade de urinar, demora em começar e terminar de urinar, sangue na urina, diminuição do jato e necessidade de ir ao banheiro mais vezes durante o dia ou à noite. As causas não são totalmente conhecidas, mas alguns fatores como idade, histórico familiar, obesidade, alimentação, tabagismo e exposição a produtos químicos podem aumentar o risco. A doença é confirmada após a biópsia, que é indicada ao encontrar alguma alteração no exame de sangue (PSA) ou no toque retal, que são prescritos a partir da suspeita do médico especialista. No consultório, Arbex observa que a maioria dos pacientes sente apenas uma leve pressão durante o procedimento — nada comparável ao temor criado em torno dele. O exame leva apenas 10 segundos e é feito com cuidado para reduzir qualquer incômodo. Os profissionais que realizam esse exame utilizam luvas, lubrificante e fazem movimentos delicados para palpar a próstata e identificar alterações que exames de sangue, como o antígeno prostático específico (PSA), não detectam. Apesar dos avanços em diagnóstico laboratorial, o toque retal segue indispensável porque permite detectar nódulos, endurecimentos e outras alterações físicas que passam despercebidas pelo PSA. Arbex reforça que até 20% dos tumores podem ser identificados apenas pelo toque, mesmo com PSA normal. Outro mito comum é o de que todos os homens devem começar a fazer o exame do toque somente após os 50 anos. A recomendação é que o urologista decida, caso a caso, o melhor método e momento de rastreamento, considerando idade, histórico familiar, raça e fatores de risco. “Homens negros, obesos ou com histórico familiar de câncer de próstata devem começar aos 45 anos. Esses grupos exigem atenção especial porque têm maior probabilidade de desenvolver tumores agressivos”, explica o urologista Rodrigo Braz. Já pacientes sem fatores de risco podem esperar para iniciar o rastreamento após os 50 anos, com o PSA, exame físico e ultrassom. A regularidade também importa: a recomendação geral é repetir a avaliação anualmente, pois estudos mostram queda importante na mortalidade quando o acompanhamento é contínuo. Por que é importante fazer o exame de toque retal Detecta alterações que o PSA pode não identificar. Há casos de tumores palpáveis que aparecem mesmo com o PSA normal; É rápido e indolor, durando menos de um minuto; Permite diagnóstico precoce, aumentando as chances de cura para mais de 90% nos casos iniciais. Complementa exames de sangue e imagem, oferecendo avaliação mais completa da próstata. Reduz mortalidade quando feito regularmente dentro do rastreamento anual. Arbex ressalta que há poucas contraindicações reais ao exame. Em casos de prostatite bacteriana aguda, por exemplo, o toque não é indicado porque pode agravar a inflamação. Fora isso, o procedimento é seguro e deve ser realizado apenas com consentimento do paciente. Uma conversa franca com o urologista ajuda a reduzir a ansiedade e desfazer mitos — inclusive o de que o exame afetaria a masculinidade. Sinais e sintoma de alerta Embora o câncer de próstata muitas vezes não cause sintomas no início, alguns sinais merecem investigação, especialmente alterações urinárias, como jato fraco, urgência para urinar e acordar várias vezes à noite. Os especialistas alertam que é importante lembrar que a maior parte desses sintomas tem origem benigna, como na hiperplasia prostática — aumento não canceroso da próstata. Ainda assim, só a avaliação médica diferencia um quadro do outro e evita diagnósticos tardios. Responsabilidade com a própria saúde Para ambos os médicos, a maturidade emocional de enfrentar o toque diz mais sobre responsabilidade com a própria saúde do que qualquer imagem de “força” culturalmente construída. No fim das contas, o tabu fala mais alto que o incômodo. Enquanto a sensação física dura segundos, as consequências de evitá-lo podem acompanhar por toda a vida. O câncer de próstata é o segundo mais frequente entre os homens no Brasil e causa mais de 16 mil mortes por ano, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). A mensagem apropriada em torno do assunto é que negligenciar um exame tão rápido e simples por vergonha é colocar a própria vida em risco. “O medo do exame não pode ser maior que o medo de perder a vida”, resume Arbex. Cuidar da saúde também é um ato de coragem. Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e fique por dentro de tudo sobre o assunto! Notícias
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