Microplásticos e metais: conheça o lado nem tão cintilante do glitter Ouvir 1 de março de 2025 *O artigo foi escrito pela professora Tatiana Dillenburg Saint’Pierre do Departamento de Química, pesquisadora do CNPq e cientista do Nosso Estado da FAPERJ, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e publicado na plataforma The Conversation Brasil. Demorou mas chegou. A festa mais esperada do ano no Brasil começou oficialmente nesta sexta-feira (28/2), último dia de fevereiro, enchendo as ruas do país de música, brilho e alegria. E do bloco de rua à escola de samba, um dos itens mais usados para dar um toque especial a qualquer fantasia de carnaval é a purpurina. Também conhecida como glitter, a purpurina é um conjunto de partículas minúsculas que refletem a luz e se prendem a praticamente qualquer superfície. Mas, além da dificuldade em se livrar dela depois da folia, esse pozinho cintilante esconde um lado obscuro: é nocivo ao meio ambiente e levanta preocupações sobre impactos à saúde humana. Nossa equipe de pesquisadores, do Departamento de Química da PUC-Rio, conduziu um estudo detalhado sobre o glitter, publicado no Journal of Trace Elements in Medicine and Biology. Investigamos as concentrações de metais e outros elementos químicos presentes nesse material, além de como acontece a sua absorção pelo corpo quando entra em contato com a pele, e qual seu comportamento em ambientes aquáticos. Afinal, o que é o glitter? A ideia para o estudo surgiu da preocupação com os microplásticos no ambiente, pois a maioria das purpurinas é composta, basicamente, por plásticos com dimensões menores que 5 milímetros. Ela é feita principalmente de polímeros como o polietileno (PE) e o cloreto de polivinila (PVC). Mas, como esse pó é tão colorido e cintilante, pensamos que também poderia conter corantes à base de metais, que refletem a luz e por isso costumam dar esse efeito vibrante. O problema desses pigmentos é que eles adicionam um risco extra de contaminação, tanto para o ecossistema quanto para a saúde humana, pelo contato com a pele. Embora os estudos sobre os impactos de microplásticos no ambiente ainda sejam relativamente novos, os efeitos nocivos de certos metais já são amplamente documentados. No entanto, a regulação desses compostos ainda é limitada para muitos produtos, e mesmo quando há legislação, a fiscalização pode não ser efetiva, considerando a grande quantidade de novos itens lançados no mercado a todo instante. Assim, para esse estudo, compramos amostras de glitter vermelho, azul e verde em lojas comerciais no Rio de Janeiro, que analisamos no laboratório. Leia também Brasil Estudo revela glitter e até microplásticos em mariscos de SC Pouca vergonha Carnaval exige cuidados com glitter nas partes íntimas; entenda Vida & Estilo Sobrou glitter do Carnaval? 5 dicas para tirar o brilho “insistente” Vida & Estilo Glitter no Carnaval: saiba como usar e os cuidados necessários De acordo com nosso estudo, a composição química do glitter depende, principalmente, da cor. De fato, são usados metais e outros elementos químicos refletores. As amostras de cor verde tiveram maior concentração de bromo (123 mg/kg), enquanto as vermelhas continham mais titânio (116 mg/kg). Embora o metal titânio não seja responsável pela cor vermelha, ele tem um alto índice de refração, aumentando a intensidade e brilho. Além disso, o titânio, especialmente na forma de dióxido de titânio (TiO₂), é muito empregado como corante branco, bloqueador solar e aditivo de alimentos, mas seus efeitos tóxicos a humanos ainda são pouco conhecidos, sendo considerado atualmente como um poluente emergente, afetando principalmente ambientes marinhos. Apesar disso, os níveis de todos os metais encontrados nas amostras de glitter analisadas estavam dentro dos limites de segurança estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Porém, é importante ressaltar que, mesmo elementos considerados inofensivos ou de baixa toxicidade, ainda podem causar desequilíbrios em ecossistemas e organismos quando estão presentes em excesso, pois podem interagir com outros elementos, causando desequilíbrios químicos nos sistemas vivos. Também simulamos situações comuns de exposição, como o contato com a pele e com o suor humano. As concentrações de metais e metalóides liberadas pelo glitter nesse cenário não foram suficientes para apresentar um risco imediato à saúde, principalmente porque a quantidade usada por cada pessoa não costuma ser muito grande. Porém, não se pode garantir que não existam riscos de intoxicação caso alguém pinte uma grande área do corpo com glitter. Além disso, a possibilidade de outras vias de exposição, como a ingestão acidental ou a inalação de partículas, ainda precisam ser mais estudadas. O destino invisível do brilho Depois que o Carnaval acaba, o glitter também sai de cena. Mas para onde ele vai? Geralmente, ao lavar o rosto, o corpo ou as roupas, a purpurina é levada para o sistema de esgoto. Por serem partículas muito pequenas, elas passam despercebidas pelos sistemas de tratamento de água convencionais e são liberadas diretamente em rios, lagos e oceanos. Essas partículas podem persistir no ambiente por décadas, fragmentando-se em pedaços ainda menores, mas sem desaparecer completamente. No ambiente aquático, o glitter contribui para o sufocamento desse ecossistema e pode agir como uma esponja de poluentes. Ele pode adsorver substâncias químicas – tóxicas ou não –, como antibióticos, pesticidas, hidrocarbonetos e metais potencialmente tóxicos, transportando-as por longas distâncias. Quando ingeridas por organismos aquáticos, essas partículas podem causar o acúmulo dessas substâncias no organismo. Ao longo do tempo, esses contaminantes podem ser passados adiante na cadeia alimentar e chegar até os humanos, em frutos do mar ou peixes contaminados. Apesar de nosso estudo indicar que o glitter não representa um risco significativo à saúde humana por contato com a pele e que a quantidade usada individualmente seja considerada segura, o volume total descartado durante o Carnaval pode causar uma contaminação ambiental aguda significativa. Muito provavelmente, a purpurina desempenha um papel relevante na poluição plástica global, contribuindo para a acumulação de microplásticos em humanos. Portanto, é importante evitar seu uso e promover alternativas mais sustentáveis. O que fazer? Principais cuidados O ideal realmente é não usar. Mas, se alguma purpurina de origem desconhecida ficar grudada em você nesse Carnaval, não enxágue diretamente na pia ou no chuveiro. Tente removê-la ao máximo com lenços de papel ou algodão seco e os descarte no lixo. Embora isso não garanta que os resíduos não acabem em aterros e, eventualmente, no meio ambiente, ao menos evita a liberação direta pelo sistema de esgoto. Já existem opções no mercado que oferecem o mesmo brilho, mas com menor impacto ambiental. O glitter biodegradável, feito de celulose vegetal ou minerais naturais, é uma alternativa promissora. Ele se degrada rapidamente no ambiente, sem liberar poluentes tóxicos. Os efeitos ecológicos do glitter tradicional são preocupantes e não podem ser ignorados. Precisamos escolher alternativas sustentáveis e repensar nosso consumo. Afinal, o brilho do Carnaval não precisa comprometer o futuro do planeta. Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e fique por dentro de tudo sobre o assunto! Notícias
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