Teste de linguagem pode detectar tipo raro de demência precocemente Ouvir 11 de abril de 2025 Trocar palavras parecidas, cometer erros simples de concordância ou ter dificuldades para formar frases podem ser os primeiros sinais de um tipo raro de demência que afeta a linguagem: a afasia primária progressiva (APP). Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriram uma forma de identificar esses sinais precocemente. Com o apoio da Fapesp, eles mostraram que um conjunto de testes fonoaudiológicos conhecido como MTL-BR pode ajudar a detectar a condição antes que ela avance — o que pode fazer a diferença no tratamento. “Comparamos o desempenho dos participantes com e sem a síndrome em um vasto número de tarefas que envolvem distintos processamentos linguísticos. Com isso, observamos diferenças marcantes em algumas tarefas”, disse em comunicado a professora Karin Zazo Ortiz, do Departamento de Fonoaudiologia da Unifesp. Ela é autora do estudo publicado na revista PLOS ONE, em fevereiro. Leia também Saúde Teste prevê chances de desenvolver demência nos próximos 14 anos Saúde Musculação pode prevenir demência em idosos, mostra estudo brasileiro Saúde Demência: estudo aponta expectativa de vida após diagnóstico Saúde Estudo sugere traço no rosto que pode indicar maior risco de demência Como o teste funciona? No estudo, os pesquisadores avaliaram 87 participantes. Desses, 29 haviam sido diagnosticados com afasia primária progressiva e os outros 58 não tinham nenhum comprometimento cognitivo. Para garantir uma comparação equilibrada, os grupos foram pareados por idade e escolaridade. Todos foram submetidos ao MTL-BR, com uma bateria extensa de testes com 22 tarefas que avaliam a compreensão e a produção da linguagem falada e escrita. O estudo identificou quais desses testes são mais relevantes para diferenciar pacientes com APP de pessoas saudáveis, o que pode tornar a triagem mais rápida e eficiente. Os pacientes com APP tiveram pior desempenho em testes de: compreensão oral e escrita de frases, nomeação de substantivos e verbos, ditado, repetição de frases e leitura de textos. Também se destacaram tarefas como manipulação de objetos por comando verbal e reconhecimento de partes do corpo. “A possibilidade de diagnosticarmos precocemente e com mais precisão é uma ótima notícia, pois, quanto mais cedo o tratamento for iniciado, mais lenta tende a ser a progressão da doença. Mas é claro que não estamos falando de um diagnóstico completo, apenas de uma parte da avaliação capaz de permitir a identificação de pacientes que precisam de maior acompanhamento e atenção”, explicou Karin. A pesquisadora esclareceu ainda que o MTL-BR foi escolhido por ser o único instrumento validado no Brasil para avaliar distúrbios de linguagem adquiridos de origem neurológica. Tipo raro de demência A afasia primária progressiva é uma doença neurodegenerativa que se manifesta inicialmente por alterações na linguagem. É diferente da afasia causada por AVC ou traumas, por exemplo. Com o tempo, a APP evolui e pode afetar outras funções cognitivas, como ocorre em quadros como o Alzheimer. A condição ficou mais conhecida em 2022, quando o ator Bruce Willis foi diagnosticado com afasia, que depois evoluiu para demência frontotemporal. No Brasil, o cartunista Angeli também se afastou do trabalho após um diagnóstico semelhante. A APP tem diferentes variantes. Uma delas, chamada “não fluente”, afeta a estrutura das frases e pode ser acompanhada de dificuldades motoras na fala. Outra, a “variante semântica”, compromete o significado das palavras. Já a forma “logopênica” se assemelha ao Alzheimer, com dificuldades para entender conteúdos longos e falhas na pronúncia. Existe ainda a forma mista ou não classificável, quando os sintomas não se encaixam claramente em nenhuma das variantes. “Apesar da importância da linguagem no que diz respeito ao diagnóstico diferencial de doenças neurodegenerativas, ainda há uma carência de ferramentas de avaliação da linguagem para todos os tipos de demência, incluindo a afasia progressiva primária. Nosso estudo contribui para preencher essa lacuna”, destaca Karin. Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e no Canal do Whatsapp e fique por dentro de tudo sobre o assunto! Notícias
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