O perigoso elo entre obesidade e o câncer colorretal Ouvir 16 de setembro de 2025 Além das doenças cardiovasculares e da diabetes, o câncer engrossa a lista de danos atrelados ao excesso de peso. Na literatura científica há vários trabalhos comprovando essa ligação. Inclusive uma meta-análise (método que analisa resultados vindos de diversas pesquisas) revela que indivíduos com obesidade têm um risco de 25% a 57% maior de desenvolver câncer colorretal. Outro estudo recente, publicado no periódico Jama Network, chama a atenção para o acúmulo de gordura na região da barriga, a chamada obesidade central, que estaria relacionada ao risco de tumores intestinais. O trabalho foi realizado por pesquisadores alemães, que analisaram dados de 458.543 participantes do UK Biobank – pesquisa britânica que avalia condições de saúde de meio milhão de pessoas – com idades entre 40 e 69 anos. “Esse artigo destaca a importância da medida da circunferência abdominal como parâmetro para avaliar o aumento do risco de câncer colorretal”, comenta a endocrinologista Cláudia Schimidt, do Einstein Hospital Israelita. Leia também Mundo OMS inclui novas medicações contra obesidade na lista de essenciais Saúde Obesidade infantil cresce no Brasil e já afeta 1 em cada 3 jovens Saúde Entenda como a obesidade pode prejudicar a vida de uma criança Saúde Superobesos: o complicado caminho para a cirurgia bariátrica no SUS O excesso de gordura abdominal – entremeado nos órgãos – é considerado como um tecido endócrino, ou seja, que produz diversas substâncias, inclusive algumas pró-inflamatórias. Há evidências de que pequenas e constantes inflamações podem desencadear danos celulares e o desenvolvimento do câncer. Também há indícios de que desequilíbrios hormonais, comuns na síndrome metabólica, contribuam para a gênese de tumores. Nesse sentido, estudos ainda apontam para um elo com a resistência à insulina, distúrbio relacionado com o desajuste no metabolismo da glicose. “Hoje a obesidade é considerada como o segundo maior fator de risco evitável para o câncer”, afirma o oncologista Alexandre Palladino, chefe do setor de Oncologia Clínica do Instituto Nacional de Câncer (Inca). De acordo com estimativas, a obesidade só fica atrás do tabagismo. Para reduzir o risco Daí que estratégias para prevenir a obesidade também podem contribuir para reduzir o risco de câncer, embora em ambos os casos a predisposição genética seja um fator importante. O excesso de peso já se tornou uma espécie de epidemia em muitos países e a incidência continua em crescimento. “Há a necessidade urgente de políticas de saúde públicas para intervenções eficazes”, diz a endocrinologista do Einstein. Ela ressalta que o ideal seria ter quadras, praças e parques seguros e disponíveis para a prática cotidiana de atividade física, por exemplo. E existe comprovação científica de que combater o sedentarismo é fundamental para afastar todos os tipos de câncer. 12 imagensFechar modal.1 de 12 Também conhecido como câncer de cólon e reto ou colorretal, abrange os tumores que se iniciam na parte do intestino grosso -chamada cólon -, no reto e ânus Getty Images2 de 12 De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de que o problema tenha provocado o óbito de cerca de 20 mil pessoas no Brasil apenas em 2019 Getty Images3 de 12 O mês de março é dedicado à divulgação de informações sobre a doença. Se detectado precocemente, o câncer de intestino é tratável e o paciente pode ser curado Getty Images4 de 12 Os principais fatores relacionados ao maior risco de desenvolver câncer do intestino são: idade igual ou acima de 50 anos, excesso de peso corporal e alimentação pobre em frutas, vegetais e fibras Getty Images5 de 12 Doenças inflamatórias do intestino, como retocolite ulcerativa crônica e doença de Crohn, também aumentam o risco de câncer do intestino, bem como doenças hereditárias, como polipose adenomatosa familiar (FAP) e câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC) Getty Images6 de 12 Doses de café pode reduzir em 30% risco de câncer de intestino Getty Images7 de 12 Os sintomas mais associados ao câncer do intestino são: sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal, dor ou desconforto abdominal, fraqueza e anemia, perda de peso sem causa aparente, alteração das fezes e massa (tumoração) abdominal Getty Images8 de 12 O diagnóstico requer biópsia (exame de pequeno pedaço de tecido retirado da lesão suspeita). A retirada da amostra é feita por meio de aparelho introduzido pelo reto (endoscópio) Getty Images9 de 12 O tratamento depende principalmente do tamanho, localização e extensão do tumor. Quando a doença está espalhada, com metástases para o fígado, pulmão ou outros órgãos, as chances de cura ficam reduzidas Getty Images10 de 12 A cirurgia é, em geral, o tratamento inicial, retirando a parte do intestino afetada e os gânglios linfáticos dentro do abdome. Outras etapas do tratamento incluem a radioterapia, associada ou não à quimioterapia, para diminuir a possibilidade de retorno do tumor Getty Images11 de 12 A manutenção do peso corporal adequado, a prática de atividade física, assim como a alimentação saudável são fundamentais para a prevenção do câncer de intestino Getty Images12 de 12 Além disso, deve-se evitar o consumo de carnes processadas (por exemplo salsicha, mortadela, linguiça, presunto, bacon, blanquet de peru, peito de peru, salame) e limitar o consumo de carnes vermelhas até 500 gramas de carne cozida por semana Getty Images O que vai ao prato Não custa reforçar que a alimentação saudável conta muitos pontos nesse contexto. Grande parte dos estudos recomenda priorizar itens vegetais e reduzir a carne vermelha no dia a dia. Um dos mais recentes, que aponta o elo com os bifes, foi publicado no periódico científico Frontiers in Medicine. A dieta mediterrânea, recheada de hortaliças, grãos integrais, legumes, feijões, frutas, sementes, com espaço para lácteos magros e pescados, é um exemplo a ser seguido. Uma dica é optar por alimentos regionais e sazonais que, além de mais frescos e saborosos, tendem a ser mais nutritivos. “Para reduzir o risco do câncer colorretal, as fibras são essenciais”, reforça o oncologista do Inca. Aliás, grande parte dos alimentos mencionados acima – à exceção dos laticínios e dos peixes – oferecem o nutriente que zela pela integridade do intestino. Além de favorecer o trânsito intestinal, combatendo a constipação e reduzindo o contato de mucosas do órgão com moléculas perigosas, as fibras colaboram para a saúde da microbiota. Diversos trabalhos mostram danos relacionados à disbiose, que é o desequilíbrio na população de bactérias, com maior concentração de micróbios patogênicos em comparação com os benéficos. Nesse cenário, a permeabilidade do intestino acaba prejudicada, permitindo que micro-organismos nocivos viajem pela circulação e desencadeiem inflamações, entre outros distúrbios. As fibras, junto dos probióticos – leite e iogurtes com bactérias benéficas – favorecem a harmonia, ajudando a manter a população de micro-organismos responsáveis pelo metabolismo dos ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs). Há indícios, vindos de diversas pesquisas, de que esses compostos teriam ação anti-inflamatória e protegeriam as células intestinais. Por fim, um recado importante é o de ficar em dia com o check-up. “As últimas diretrizes recomendam fazer a colonoscopia a partir dos 45 anos”, avisa Palladino. Para quem tem histórico familiar de câncer, vale conversar com seu médico e, se for o caso, antecipar o exame. O diagnóstico precoce é uma estratégia crucial para o sucesso no tratamento. Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e fique por dentro de tudo sobre o assunto! Notícias
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