Amnésia infantil: entenda por que não lembramos da primeira infância Ouvir 2 de outubro de 2025 Grande parte das pessoas sofre de amnésia infantil e consegue acessar lembranças da infância apenas a partir dos 3 ou 4 anos de idade. Antes desse período, mesmo que experiências significativas tenham ocorrido, é raro que elas se mantenham na memória consciente quando se chega à vida adulta. Esse fenômeno não é considerado um problema de saúde, mas sim uma etapa natural do desenvolvimento. A ausência de recordações da primeira infância está ligada a fatores como o funcionamento do cérebro em formação, desenvolvimento da linguagem e o ambiente em que a criança cresce. Leia também Ciência Como o cérebro cria memórias? Ciência desvenda mecanismos da lembrança Saúde Bebês criam memórias após o 1º ano de vida, aponta estudo Saúde Transplantados “herdam” memórias e personalidades de doadores? Entenda Saúde Harvard: sonhar acordado ajuda a fixar memórias e aprender conteúdos O que é amnésia infantil? Refere-se à dificuldade da maioria dos adultos de recordar experiências antes dos 3 ou 4 anos. É uma fase natural do desenvolvimento cerebral, relacionada ao amadurecimento do hipocampo e de outras áreas associativas. Não indica problema de memória ou déficit cognitivo. Por que não lembramos da infância? A principal razão para não lembrar da infância está na imaturidade do cérebro nos primeiros anos de vida. O hipocampo, região cerebral responsável pela consolidação de memórias episódicas, só alcança funcionalidade estável por volta dos 3 a 4 anos. Isso explica por que memórias das primeiras palavras ou dos primeiros passos são raramente acessíveis, mesmo que tenham sido experiências significativas. Além disso, o cérebro passa por um processo chamado poda sináptica, em que conexões menos usadas são eliminadas para otimizar recursos. Por isso, memórias iniciais que não são reforçadas acabam sendo descartadas, permitindo que o cérebro abra espaço para memorizações mais organizadas no futuro. Fatores como ritmo de desenvolvimento, ambiente rico em estímulos e aspectos genéticos também influenciam no surgimento de memórias estáveis. O neurocientista André Leão, de São Paulo, explica que o desenvolvimento da memória autobiográfica — tipo de memória que permite recordar eventos e experiências pessoais que ocorreram ao longo da vida — está ligado à maturação cerebral e à capacidade de organizar experiências em narrativas. “A linguagem tem um papel fundamental. Quando a criança aprende a estruturar frases e narrativas, o cérebro cria uma ponte entre experiência e significado. Essa reorganização sináptica, que conecta regiões temporais, hipocampo e córtex pré-frontal, é o que permite transformar vivências em memórias autobiográficas estáveis. Em outras palavras: lembrar não é só viver, é também contar a si mesmo o que viveu”, explica. Esse processo mostra que a memória não depende apenas da experiência em si, mas da forma como o cérebro consegue estruturar e codificar essas vivências. A aquisição da linguagem permite que cada evento seja interpretado, categorizado e conectado a outras lembranças, o que cria uma rede neural organizada. Memórias implícitas e traumas Mesmo sem recordações conscientes, o cérebro infantil registra experiências através da memória implícita. Esse tipo de memória não se traduz em lembranças narrativas, mas influencia comportamentos, reações emocionais e habilidades motoras. Hábitos adquiridos, medos, preferências e padrões de interação social, por exemplo, podem se formar antes que a criança consiga narrar suas experiências. Traumas ou situações estressantes podem deixar marcas emocionais, manifestadas em ansiedade, respostas de defesa ou alterações no sono. Experiências vividas nos primeiros anos podem moldar comportamentos e emoções mesmo sem lembrança consciente Patrícia Consorte, médica especialista em pediatria de São Paulo, esclarece que existem técnicas para ajudar as crianças a lidar com traumas ocorridos antes dos três anos, mesmo sem a memória explícita. “A pediatria orienta os pais a validarem os sinais emocionais e comportamentais da criança; não minimizar ou suprimir as reações, mesmo que a criança ‘não se lembre’; procurar suporte psicológico especializado, como psicoterapia infantil baseada em vínculos e linguagem não-verbal e manter uma rotina segura, previsível e afetuosa, pois a sensação de segurança é reparadora, mesmo sem elaboração verbal”, aconselha. Como pais e cuidadores podem ajudar Os pais e cuidadores têm um papel essencial mesmo antes da criança formar memórias conscientes, já que a maneira como as experiências são narradas e interpretadas ajuda a estruturar cognitivamente os acontecimentos, além de apoiar o desenvolvimento emocional e social da criança. Para isso, algumas práticas podem ser adotadas: Narrar histórias da infância: descrever situações do dia a dia e recontar experiências passadas transforma vivências em memórias organizadas. Fortalecer vínculos afetivos: compartilhar experiências e criar rotinas seguras reforça senso de identidade e pertencimento. Estimular a linguagem: interações verbais frequentes ajudam a criança a conectar palavras e experiências, facilitando a formação de memórias autobiográficas. Manter ambiente seguro e acolhedor: rotinas previsíveis e atenção emocional proporcionam desenvolvimento saudável, mesmo quando as lembranças conscientes ainda não se formaram. Ao adotar essas práticas de forma consistente, a criança passa a se perceber como um indivíduo contínuo no tempo, construindo uma base sólida para habilidades cognitivas, emocionais e sociais. Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e fique por dentro de tudo sobre o assunto! Notícias
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